Recentemente escutei uma fala de Joyce Carol Oates, na qual ela recomenda que mantenha um diário toda pessoa que deseja escrever. Antes de dormir, algumas linhas sobre o dia seriam exercício suficiente. Recomenda que algumas falas sejam adicionadas, e só. O diário é, para quem escreve, como o caderno de esboços de quem desenha, uma coleção de fragmentos pedestres, cujo objeto importa menos que a constância de abrir e deixar ali um pouco de algo. Se a escrita for feita do próprio punho, tanto melhor.
A fala de Oates me moveu em camadas, pois há muito tempo não sei o que é olhar uma página e escrever apenas por escrever. Um diário é um álbum íntimo de fragmentos, e não deveria interessar a ninguém. Nisto ele é diferente do livro de esboços, que não raro também é publicado. Tenho escrito artigos, ensaios, resultados de pesquisas, casos clínicos, rascunhos para histórias que não prestam ainda para serem lidos (talvez nunca prestem). A fala de Oates me moveu por essa autorização a escrever sem a pressão de escrever algo relevante ou bem acabado. É uma escrita, de certo modo, inútil.
Sobre o que quero escrever quando não escrevo útil é uma pergunta difícil de responder. Tampouco está claro se é caso de querer, poder ou saber. Além de um objeto, quando escrevo útil há um objetivo de partida, ainda que seja apenas explorar. Escrever inútil parece ser menos sobre o objeto e mais sobre se permitir errar, em todos os sentidos. Errando se chega sempre em algum lugar. Não estou convencido, porém, de que seja possível escrever sem chegar, a qualquer tempo, num objeto.