Em algum momento disse para mim mesmo que não traria para a ficção qualquer coisa que devesse ser levada, antes, para o divã. Este também é um problema em camadas: após conhecer pesquisadores cujos objetos de estudo são eles próprios, suas pequenas histórias particulares, prometi tentar não fazer o mesmo, nem na academia, nem na ficção.
Tentar é a melhor palavra que encontro para reconhecer que isso nem sempre é uma tarefa trivial. Se é verdade que partir de algum lugar é preciso, também é verdade que não se parte senão daquilo que conhecemos. A solução menos convoluta que encontrei para este embaraço repousa em alguma variante da composição: compõe-se um terceiro conteúdo não familiar a partir de dois conteúdos familiares. Nada nesta manga. Nada nesta outra. Borram-se todos os nomes. Fim.
Quando se trata de não ficção, contudo, a imobilidade surge também das pretensões da escrita: a de ser, por um lado, ou perfeitamente panorâmico, passeando por tudo sem qualquer aprofundamento, ou profundo à náusea, sacrificando tudo em nome da exaustividade monográfica, pelo outro. Não descartarei essa velha ideia de Eco, mas talvez seja possível um meio termo, e escrever sobre algo sem grande pretensão. Uma pequena ideia, num pequeno texto, exprimindo um modo de ver, muito possivelmente passageiro, de um objeto.