A existência de objetos compartilhados desafia o leitor na medida em que estes podem ser peculiares somente à ficção, fora da qual o aparente compartilhamento se revela um projeto de fazer coincidirem pelo menos dois objetos em constante, e artificial, atualização. Operam como promessa e como ideal de unidade, ainda que se ignore a ameaça que estes representam aos objetos privados (i.e., ao meu objeto, ao objeto alheio etc.). Seu exemplo mais virtuoso é a utopia, a crença no compartilhamento em massa de objetos.
Escrever sobre objetos compartilhados requer que uma porção considerável de seu conteúdo permaneça propositadamente vaga, de modo a permitir que o leitor preencha sua estrutura semi-oca com seus próprios conteúdos. Tem sucesso o leitor que, ao menos momentaneamente, se permite iludir quanto à coerência, universalidade e, mais importante, antiguidade do falso objeto compartilhado que há pouco criou, ao mesmo tempo em que falha em perceber que, se tal objeto de fato existisse, deixaria ele, o próprio leitor, de existir.
Não se fala da experiência de leitura de um objeto compartilhado sem algum constrangimento. Este aparenta ser muito íntimo, verdadeiramente revelador das crenças do leitor em sua porção originalmente semi-oca, ao passo que seu complemento maciço, aquilo que o fisgou em primeiro lugar e que se perde em meio à porção posteriormente criada, consiste num conjunto de proposições que o leitor deve agora declarar publicamente como verdadeiras e como suas desde sempre, como se preexistissem à sua criação no momento da leitura.